Uma reflexão: Entre as Olimpíadas e UFC, brasileiro não sabe perder



Toda vez que alguém descobre que faço karate sempre me pergunta o que eu penso sobre UFC. Quando começam debates acalorados sobre o assunto, pessoas falando agressivamente como se fossem superintendentes em artes marciais e usando nomes de golpes de uma maneira totalmente genérica e equivocada penso duas vezes antes de dar minha opinião quando requisitada. Faço-me de desentendida e concordo com o que falam pois sei que em determinados casos não vale o esforço. E eu dou murro em madeira e não em ponta de faca.

Sou adepta das artes marciais desde os 15 anos e se pudesse teria começado com menos idade. Sou apaixonada pelo que faço e já passei por diversos caminhos que tive de deixar por conta da faculdade, casamento, mudanças de residências. Hoje faço apenas o Karate, estudo, me aplico, me cobro. Sei o retorno físico e mental que me dá e o quanto significa para mim. Mesmo assim sou grata a cada arte que passei e tive o prazer de conhecer. Cada uma que me lapidou de maneira diferente e me mostrou um pensamento totalmente novo sobre limites do corpo e mente.

Ah sim, o que penso sobre MMA é o seguinte: é um esporte como tantos outros, só que sua interpretação depende do intelecto de quem assiste.

Eu mesma já gostei de verdade de UFC um dia a ponto de assinar o Canal Combate para não perder uma só luta. De uns tempos para cá posso dizer com propriedade que perdi grande parte da excitação de assistir lutas. Hoje me resumo às do Griffin que me divertem de um jeito muito pessoal e pretendo explicar o porque em um post futuro. Se ele for lutar na noite tal com certeza você me verá comentando, debatendo sobre os cards anteriores e até os após. E só.

Fico contente quando um brasileiro ganha, afinal sou brasileira e é bom ver atletas levando a nossa bandeira por aí. Mas não condeno nem o Griffin e nem os nossos atletas brasileiro quando perdem. Não me acho no direito de fazê-lo pois sei o duro que dou e sequer profissional eu sou. Respeito-os como quem torce e como quem luta.

Hoje à noite tivemos a luta do Machida x Bader. Fiquei sabendo através do Facebook, para ver o tamanho do meu interesse. Tempos depois o resultado veio favorável ao meu até então Senpai. Muitos posts dizendo do orgulho do Machida ter vencido, de ter nocauteado um gringo e que é mais um brasileiro levantando a bandeira do Brasil lá fora. Todos estão felizes e orgulhosos por ele ter ganhado. O Brasil pode dormir essa noite com sentimento de missão cumprida.

Se ele perdesse a história seria a mesma? O respeitariam, o apoiariam mesmo perdendo?

Antes de começar a debater o “e se” do senhor Lyoto é bom lembrar que UFC é o novo futebol. Todo mundo adora MMA desde sempre. O Brasil se tornou o país do MMA. O Brasil exporta os melhores lutadores do mundo. É comum ver alguém que jura que já foi lutador sério mesmo tendo feito apenas uma (ou nenhuma) aula na vida ou ter se metido em briga quando era criança. Aqui posso usar uma gíria que inventei “faixa preta mental”. Isso é bem típico do brasileiro, o ser “desde sempre”.

Se você acha que estou exagerando então voltemos meses atrás quando a Alemanha estava ganhando todas e diversas pessoas juravam ter sangue alemão a ponto de comprar camisas e arriscar umas palavras na língua. Quando perdeu, camisetas no lixo e “que droga é a Alemanha”. Senti pena do pobre Daniel, descendente de alemães que sempre teve a postura de torcer por ela. Assim como eu descendente de italianos que torce igualmente pela Itália da mesma forma que torce pelo Brasil, minha amada terra natal. E em uma final entre os dois respeito quem ganha e respeito quem perde.

Esse post não é sobre UFC pois o que penso você já sabe. É sobre a vitória do Machida que me jogou de cabeça para uma reflexão curiosa sobre a atitude do brasileiro em todo e qualquer esporte. Obviamente que temos exceções à regra. Falarei de uma maioria quase sufocante. Uma maioria esmagadora e má que julga sem se colocar no lugar do outro.

É importante lembrar que essa febre Dana White pode ter grande aceitação e ao contrário do que se pensa, para atletas marciais de longa data é o equivalente ao inferno na Terra. A morte de valores, a banalização de técnicas milenares, o grande desrespeito para seus mestres. Academias de artes marciais tradicionais (principalmente as de Karate) são praticamente compostas por grupos fechados, rígidos e muito sérios. Alguns escolhem a dedo um novo integrante e podem expulsá-lo a qualquer momento se achar que deve. Eu mesma passei por isso, de fazer entrevista para ser admitida por um Sensei, ter de mudar completamente minha maneira de proceder e ver expulsões por indisciplina.

Em contrapartida, para os mais novos a coisa é completamente diferente. Para eles MMA é uma chance. A pergunta que sempre me fazem já foi feita por mim para mestres de diversas artes. Para os karatecas da idade da pedra, para mestres de Kung Fu e Krav Maga, para diversos amigos de outras modalidades. As respostas variam entre “a morte das doutrinas” e “oportunidade para os novos lutadores do nosso país”. Como convivo com os que odeiam e abominam tal afronta (palavras deles que fique claro) comecei a ver de outras formas, nas entrelinhas. E a enxergar a popularização por aqui de um modo muito peculiar.

Se o Lyoto perdesse ele não teria o mesmo tratamento pelo simples fato de que o brasileiro abomina quem perde e não sabe lidar com derrotas. O que penso se resume ao que postei em meu Facebook:

“Vivemos em um país onde só quem ganha tem valor. Se ganha todas é herói, é exemplo. Se o cara começa a perder tá ficando velho e precisa se aposentar. Virou fracassado. Só quem luta, joga, nada, compete e vive isso sabe o que é o significado de ganhar ou perder em um país tão mente pequena que não aceita revés e ainda jura que compreende o que é espírito esportivo.”

O exemplo claro aconteceu alguns dias atrás com a derrota do Cielo. Se você pesquisar sobre ele encontrará nada menos que “decepção” “derrotado” “perde o fôlego e faz vergonha no final”. Ou coisas piores, afinal a cada minuto temos novas notícias e novos pontos de vista sobre um mesmo assunto.

A mesma coisa aconteceu com o Machida ao perder do Shogun tempos atrás. Lembro-me de ler as mais terríveis afirmações, que o rapaz estava acabado, que a carreira dele estava no fim e ele era um derrotado que precisava se aposentar antes de fazer mais vergonha no octógono. O país urrava pelo Shogun e crucificava o outro de maneira tão cruel e esquecendo que o mesmo saiu daqui, esquecendo de tudo que o cara já ganhou até então. Perdeu não vale, tem que ganhar sempre.

Lyoto foi piada durante algum tempo e voltou a ser herói quando venceu Couture (obrigada Diego Borges pela correção) usando um dos chutes mais conhecidos do Karate e fez com que academias de todo o país jurassem que não. O chute duplo (tobi geri só pra constar) de Lyoto virou assunto e de derrotado voltou a ser “o Dragão Brasileiro”. Na minha concepção ele nunca deixou de ser mesmo perdendo.

E depois Lyoto voltou a ser piada. Não só ele como todos os brasileiros que perderam para o Anderson Silva. Lembro-me de sentir nojo dos comentários sobre o Victor Belfort, pessoas ofendendo não apenas ele mas como sua esposa, seus filhos e sua dor de ter perdido a irmã Priscilla para a violência que assombra nosso país.

Mas a maioria não pensa assim. A maioria quer vitória, quer sangue. Não me surpreenderia se um dia chegarmos ao ponto de viver como “Gigantes de Aço” onde a cobrança por morte no ringue se torna tão violenta que faz com que a humanidade esqueça de que temos seres humanos trabalhando e ganhando seu pão de cada dia ali.

Em lutas de brasileiros contra estrangeiros, não só no MMA, tem-se a atitude do “ganhar do de fora e mostrar pro mundo quem manda” e na “de perder e envergonhar o Brasil”. Na de brasileiros contra brasileiros é sempre a mesma história, “um herói e uma piada”. Como falei ainda no Facebook sobre Machida contra Shogun “de uma luta de dois brasileiros ao invés do que perdeu sair com uma medalha de honra ao mérito de segundo lugar dos seus conterrâneos, sai com uma cruz nas costas”.

E eu poderia citar ainda os atletas do judô, da ginástica olímpica, futebol feminino, vôlei e muitos outros que tiveram de lidar com as críticas mais cruéis por terem perdido só essa semana. Li em um artigo a atitude boçal dos torcedores brasileiros que foram assistir as Olimpíadas e se deram o trabalho de sair do Brasil para ofender os atletas que erravam com os mais elaborados xingamentos enquanto os torcedores locais os aplaudiam como sinal de respeito. Belo exemplo para o mundo.

As pessoas desconhecem limites, pisam, humilham. O mais interessante é ver que muitas delas não agüentariam um soco mas acreditam cegamente serem feitas de adamantium. Xingam atletas que perdem o fôlego em uma piscina olímpica como se nadassem durante toda sua vida, todos os dias por um propósito maior. E mesmo que o façam, ninguém tem o direito de julgar e sim de respeitar. Perdemos grandes atletas por conta disso, por conta de humilhação, de desgosto. É vendida a camisa de um patriotismo que não existe para quem perde independente do esforço.

Ninguém se questiona o quanto um atleta treina, sofre, abdica e recusa para estar ali. Ninguém pára para analisar o quanto é difícil ser reconhecido por seu trabalho em país onde você faz o que pode com os recursos que tem acesso. Onde o dinheiro é investido quase em sua totalidade para o futebol. Ou ser aceito lá fora, ser equivalente a outros atletas que são tratados de maneira completamente diferente. Você chegar a um ponto onde uma minoria no Brasil consegue chegar e ser sabotado pela sua própria pátria quando deveria ter apoio.

E os mesmos que urram por Lyoto hoje o zombarão amanhã caso perca. E será o mesmo com Anderson Silva. Não foi com Senna porque morreu antes. E embora esse seja o modus operandi do brasileiro ainda vende-se uma imagem de povo que segue o caminho do tente outra vez e “não diga que a vitória está perdida, se é de batalhas que se vive a vida”.

Parabéns ao Machida que ganhou e perdeu, ao Cielo que ganhou e igualmente perdeu e a todos os atletas que tem de conviver todos os dias com o fardo de hoje ser aceito e amanhã ser excluído por ser humano e passível de falhas. A verdade é que só o fato de estar em uma olimpíada ou ter seu nome reconhecido mundialmente já te faz um campeão, coisa que o brasileiro não compreende pois está muito ocupado vangloriando apenas quem ganha. E essa conquista se torna um grande tapa na cara de uma sociedade que não levanta do sofá mas adora apontar o dedo e julgar quem é bom e quem é ruim mesmo que não dê seu exemplo.

UPDATE - Meu amigo Noga compartilhou um vídeo que retrata bem esse caos no esporte. Um pedido de desculpas para uma nação ingrata. Um vídeo triste sobre uma realidade triste e uma reflexão para quem acredita que está fazendo o certo.

Imagens: All Movies, Oi TV, Veja, Visão, Milson Tavares, Sherdog e Cage Potato.

 

Amarela!



O manual da boa saúde manda o ser humano se exercitar. Sedentarismo é doença, mata o corpo e a mente – como minha avó falava. E eu sempre segui isso a risca.

Fiz handball a maior parte da vida e de certa forma meu corpo sente falta de fazer uma atividade física. Tempos atrás, a faculdade e o trabalho me deixavam sem tempo para me inscrever em algum esporte (sempre desejei fazer Tennis) e então optei pela academia (aberta de 9 às 21:00) aqui do lado mesmo para não ficar parada. Tiro no pé.

O problema todo é que tanto eu quanto meu digníssimo marido somos desprovidos de energia e motivação para a vida de academia. O fato da minha genética ajudar multiplica essa preguiça a níveis inimaginávéis. Pensar em todos aqueles aparelhos me deixa mentalmente cansada. Eu ia um dia, faltava cinco. Paguei a primeira mensalidade para não ir. Já tentei, mais de uma vez, acredite!

Como vocês podem reparar, me encorajei a escrever sobre minha rotina nas artes marciais. No último post sobre o assunto, falei sobre as diferenças do Tae e do Karate e como prometido contarei sobre minha primeira mudança de faixa no estilo shotokan. Levando em conta que eu sou uma “MMA lover”, vamos a uma breve introdução sobre como conheci o dojo, comecei a fazer flexão de mão fechada e meu nome mudou pra “Amarela”.

Vocês já sabem que eu e @DanWolks somos apaixonados por artes marcias, MMA e nos divertimos muito assistindo as lutas do Tio White na UFC. Assistir é divertido, mas nem sempre as artes marciais (e a lei) permitem que você as siga ou aplique-as da maneira, digamos, profissional do MMA. Nem em competições, na maioria das vezes. Mesmo assim, seguir o caminho da luta não é tão simples do que parece, você deve ser responsável por si e pelos outros. Tudo se une: corpo, mente e coração – se você colocar esses elementos, claro.

Estou aí no meio - agora é com você me achar =P

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